Um abraço
Que sentido há quando se perde as esperanças? Não existe mais "pai", não existe mais "mãe", não existe mais "casa" e o irmão que me restava partiu para terras distantes. O que tenho, agora, é um resto de vida que não sabe se conhecerá amanhã. Ontem, hoje, amanhã é tudo a mesma coisa; eu não tenho destino, não tenho afazeres, apenas esse corpo que mantenho vivo sem saber porquê. Eis o que me resta: permanecer vivo; eis o que passa as longas horas dos meus dias.
Não é a fome nem a sede o que me atormenta, já as conhecia, já passei mais de um dia sem comer. Me dói é a solidão, é o estar só e o saber estar só no meio da multidão; é o estender os braços e me sentir um fantasma, não visto, intocável; é abraçar-me a um cachorro tão faminto quanto eu quando a noite esfria; é acordar no outro dia. Alvorada, a marcha continua.
Aprendi a dizer adeus e, obrigado a renunciar ao abraço de despedida, me lancei ao mar. Me pergunto: existe razão no desespero? Digo hoje em português "obrigado". Acredito: há.

3 Comments:
Não deveríamos todos renegar essa civilizaçõ ilusória e retornarmos aos primóridos do sentido da palavra homem? Esquecer tudo e preocuparmos somente com nossa sobrevivência. Afinal, o que é um Duvet e para quê ele é necessário apra a sobrevivência humana?
Não faz idéia de como esse texto mexe comigo, Renan...
Sabe? Permanecer viva - eu sei que já foi dito milhares de vezes pela nossa amiga "arte", mas vale reiterar - quando alguém que amamos "vai embora" é o maior sofrimento pelo qual passo. Paradoxo dos paradoxos, viver se torna uma contagem regressiva irresistível pra que a morte chegue. Tem dias que a gente quer que seja logo, tem dias que a gente acha que pode demorar um pouquinho... estes últimos são os dias que finjo não carregar o sofrimento comigo. Mas não adianta, a contagem tá ali, tic-toc... e isso tudo tá intimamente ligado ao desespero, óbvio.
Razão no desespero? Ou me desespero com muita emoção, ou ainda não consegui encontrar. Eu o temo, talvez seja meu maior medo... desesperar-me a ponto de não conseguir voltar.
Lindo texto, beijo grande,
Luciana
Anderson, eu adoraria conseguir me preocupar apenas com minha sobrevivência. Entretanto, acho que isso só seria possível se não fossemos seres humanos, repletos de sentimentos. A sobrevivência do outro interage com a nossa...
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