25 Agosto 2005

Um abraço

Que sentido há quando se perde as esperanças? Não existe mais "pai", não existe mais "mãe", não existe mais "casa" e o irmão que me restava partiu para terras distantes. O que tenho, agora, é um resto de vida que não sabe se conhecerá amanhã. Ontem, hoje, amanhã é tudo a mesma coisa; eu não tenho destino, não tenho afazeres, apenas esse corpo que mantenho vivo sem saber porquê. Eis o que me resta: permanecer vivo; eis o que passa as longas horas dos meus dias.
Não é a fome nem a sede o que me atormenta, já as conhecia, já passei mais de um dia sem comer. Me dói é a solidão, é o estar só e o saber estar só no meio da multidão; é o estender os braços e me sentir um fantasma, não visto, intocável; é abraçar-me a um cachorro tão faminto quanto eu quando a noite esfria; é acordar no outro dia. Alvorada, a marcha continua.

Aprendi a dizer adeus e, obrigado a renunciar ao abraço de despedida, me lancei ao mar. Me pergunto: existe razão no desespero? Digo hoje em português "obrigado". Acredito: há.

3 Comments:

Blogger Anderson Morales said...

Não deveríamos todos renegar essa civilizaçõ ilusória e retornarmos aos primóridos do sentido da palavra homem? Esquecer tudo e preocuparmos somente com nossa sobrevivência. Afinal, o que é um Duvet e para quê ele é necessário apra a sobrevivência humana?

15:15  
Blogger Luciana said...

Não faz idéia de como esse texto mexe comigo, Renan...
Sabe? Permanecer viva - eu sei que já foi dito milhares de vezes pela nossa amiga "arte", mas vale reiterar - quando alguém que amamos "vai embora" é o maior sofrimento pelo qual passo. Paradoxo dos paradoxos, viver se torna uma contagem regressiva irresistível pra que a morte chegue. Tem dias que a gente quer que seja logo, tem dias que a gente acha que pode demorar um pouquinho... estes últimos são os dias que finjo não carregar o sofrimento comigo. Mas não adianta, a contagem tá ali, tic-toc... e isso tudo tá intimamente ligado ao desespero, óbvio.
Razão no desespero? Ou me desespero com muita emoção, ou ainda não consegui encontrar. Eu o temo, talvez seja meu maior medo... desesperar-me a ponto de não conseguir voltar.
Lindo texto, beijo grande,

Luciana

11:19  
Blogger Luciana said...

Anderson, eu adoraria conseguir me preocupar apenas com minha sobrevivência. Entretanto, acho que isso só seria possível se não fossemos seres humanos, repletos de sentimentos. A sobrevivência do outro interage com a nossa...

11:21  

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